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  • Dra. Fernanda Pipitone

Seus exames de rotina estão em dia? – Food for thought

Ser brasileiro nos Estados Unidos dá saudades de casa. Além de paçoca e pão-de-queijo, dá saudades de ser atendido por um médico que conheça sua cultura e que fale sua língua. Os médicos por aqui são mais distantes, mais frios. É uma diferença cultura, não tem a ver com a qualidade técnica. Mas mesmo assim gera muita insegurança nos brasileiros.


No meio dessas inseguranças, o que tenho ouvido muito é: “Eles não pedem exame nenhum! Quis fazer [preencha aqui seu exame] e não quiseram pedir”. E me fez pensar.


De fato, os médicos americanos são mais institucionais e protocolares. E por isso a medicina aqui tem menos jogo de cintura.


Mas no Brasil, é inegável a cultura do check-up. A mentalidade de que um bom médico é aquele que pede vários exames e “não deixa nada passar”. A impressão, tanto de pacientes quanto de médicos, de que saúde está atrelada a “exames de rotina em dia”.


Mas essa impressão é uma falsa segurança. E se fosse só uma questão de a segurança ser falsa, eu não acharia um problema. Cada um com suas muletas para encarar esse mundo. Levanto a discussão porque muitas vezes a busca por essa segurança (que é falsa) nos torna menos saudáveis.


Explico-me. Acompanha esse raciocínio.


A grande maioria dos exames é uma aproximação da realidade. Ou seja, é uma técnica desenvolvida pra medir ou representar um desfecho. O exame pode, portanto, se aproximar da realidade em maior ou menor grau, mas mesmo exames de alta acurácia continuam sendo uma representação.


Por exemplo.


Dizemos que você está com anemia com base num hemograma. Mas nós não contamos todas as hemácias do seu corpo, contamos? Passamos alguns mL dos seus 5L de sangue por um aparelho que, com base em formas e cores, estima quanto tem ali. Maaas, um hemograma é uma representação tão, tão boa da realidade que seria preciosismo e até contra-producente não o considerar como tal.


A questão é a maioria dos exames são uma representação menos fidedigna da realidade. E é nesses que está o perigo de encarar resultados de exames como verdade absoluta, ou ainda, como garantia de saúde.


“Medicina é a ciência da incerteza e a arte da probabilidade” (William Osler). Ouvi essa citação no curso de Medicina Baseada em Evidência do médico baiano Luís Correia. E cai como uma luva para essa discussão sobre “cultura do exame”.


Vamos a mais um exemplo.


A orientação das sociedades médicas é não fazer ultrassonografia transvaginal de rotina em mulheres sem sintomas para rastreamento de câncer de ovário.*


Mas você e eu conhecemos alguém que foi salvo por um exame de rotina, certo? E todo mundo sabe que é melhor prevenir do que remediar.


Só que também conhecemos alguém que não estava sentindo nada, mas precisou fazer uma cirurgia para “garantir que estava tudo bem” depois de um resultado de exame meio esquisito. E acabou com uma dor de cabeça.


A questão é que antes de fazer o exame, não sabemos o resultado. Parece óbvio, mas não é. Antes de fazer o exame nós só sabemos qual a probabilidade dele te ajudar. Qual a probabilidade desse exame levar a um diagnóstico certo e necessário.


Então dizer que na população geral não está recomendado um certo exame de rotina traduz-se em: a chance de te beneficiar é menor do a que de te prejudicar. A chance de te salvar de um câncer é menor do que a de te levar a uma cirurgia desnecessária com possíveis complicações.


Então fazer uma lista de exames de rotina é querer evitar o desconforto de não ter certeza. É buscar uma garantia que não existe. E aqui médico e pacientes estão no mesmo barco (ouso até dizer que médicos pulam nesse barco primeiro).


Mas veja... ninguém precisa ficar sem dormir porque não fez, por exemplo, um ultrassom de mama esse ano. Há mais nessa vida do que evidência científica.


O que não pode é esperar desses exames uma garantia de saúde nem se desesperar com eventuais resultados alterados. Tem que saber onde está entrando e saber que lidar com os possíveis resultados vai exigir racionalidade e talvez uma pitada de sangue de barata.


Há duas observações importantes:

· Tudo isso se refere a pessoas sem sintomas. Exame de rotina quer dizer rastreamento, rastreamento quer dizer procurar doença em uma pessoa saudável.

· Há sim exames de rotina recomendados (Papanicolaou, por exemplo). Este texto não é uma crítica a nenhum exame. It’s just food for thought.


A palavra medicina vem do latim e significa “saber o melhor caminho” (não o único nem o garantido). E eu não poderia deixar de terminar dizendo: volto daqui com orgulho da medicina que fazemos no Brasil.



*Referências:

  1. Henderson JT, Webber EM, Sawaya GF. Screening for Ovarian Cancer: Updated Evidence Report and Systematic Review for the US Preventive Services Task Force. JAMA. 2018 Feb 13;319(6):595-606. doi: 10.1001/jama.2017.21421. PMID: 29450530.

  2. Jacobs IJ, Menon U, Ryan A, et. al. Ovarian cancer screening and mortality in the UK Collaborative Trial of Ovarian Cancer Screening (UKCTOCS): a randomised controlled trial. Lancet. 2016 Mar 5;387(10022):945-956.

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