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  • Dra. Fernanda Pipitone

“Ah, você é do Brasil? Então com certeza sabe fazer cesárea”

Eu ouço esse ou comentários semelhantes desde 2012, quando me formei em medicina e fui para Londres fazer alguns cursos. Era minha primeira vez no exterior com meu diploma em mãos e eu não tinha idéia de que era a imagem que a comunidade médica tinha do meu país.


Claro que eu sabia que nossas taxas de cesárea eram absurdas. Mas ouvir isso do outro lado do Atlântico me deixou boquiaberta. Primeiro pensei “falta peça nesse quebra cabeça, eles não têm o panorama inteiro para falar isso” (mas eu sabia que não tinha elementos nem horas de vôo o suficiente para levantar essa discussão). E segundo, “nossa, as coisas estão piores do que eu imaginava”. Especialmente quando se seguiu a frase “no Brasil, se você é rico, ganha um corte em cima; se você é pobre, ganha um corte embaixo”. Fiquei perplexa.


Mas, para minha sorte, nunca levei para o pessoal. Ao invés de me ofender, essas frases permaneceram no meu subconsciente e de alguma forma guiaram minha carreira até aqui. Elas me fizeram querer procurar a verdade.


Certo, eu já tinha entendido que não deveríamos fazer cesárea em todo mundo (mesmo). Mas me causava extremo desconforto justificar a escolha por um parto normal por ser “mais natural”. Veneno de cobra também é natural. Se “a natureza é perfeita e não devemos interferir”, por que é que acabei de passar seis anos aprendendo a dar jeito quando ela falha? A natureza é fascinante e nos dá um baile de sabedoria. Mas, para mim, não é perfeita.


Aquela mini médica de 2012 queria revirar bibliotecas até achar uma forma sólida de justificar a escolha por parto normal. Para sua surpresa, ela achou nos livros que parto normal não era melhor. Cesárea tampouco. E quer bagunçar a cabeça do jovem, é lhe tirar uma “verdade” sem lhe dar outra para pôr no lugar. A essa altura eu já estava aqui em Michigan e passei um tempo pensando “como é que vou voltar para casa e dizer que não era verdade?”.


Até que eu troquei o Norte. Entendi que não tinha escolha melhor, mas sim melhor forma de fazer a escolha. Passei então a buscar uma maneira de trazer informação de qualidade sem assustar. Confesso que encontrar esse equilíbrio é desafiador, mas estou cada vez mais convencida de que ele é necessário. Necessário para nos tirar do escuro. Nos tirar do silêncio que alimenta a vergonha das tantas mulheres que convivem com alguma disfunção de assoalho pélvico.

Nos informarmos, nos educarmos, nos apropriarmos da nossa própria história facilita lidar com as consequências das nossas escolhas (que vão existir quem quer que as faça).


Qual a minha chance de ter incontinência urinária se tiver parto normal? E se for fórcipe, posso ter bexiga caída no futuro? Melhor não fazer episiotomia, não é? E se eu escolher cesárea, estou livre de tudo isso?


Ouçam isso com carinho: a única forma de evitar as consequências de um parto é nunca engravidar. De qualquer tipo de parto. E qualquer tipo de consequência - boas e ruins.


Este texto é um convite para que conversemos sobre saúde do assoalho pélvico agora, e não na correria para sala de parto com o médico lhe perguntando se pode fazer um fórcipe. Agora, antes que escolhamos uma cesárea para nos proteger sem nem saber se estamos de fato nos protegendo.


A minha vontade é que saúde do assoalho pélvico seja tópico tão presente durante o pré-natal quanto teste de diabetes gestacional (sinceramente deveria começar antes, mas um passo de cada vez).


Desde aquela vez em Londres, eu já ouvi o mesmo comentário diversas vezes e em diferentes países. E agora tenho horas de vôo o suficiente para levantar a discussão.


Precisamos sair desse pêndulo que oscila entre “parto natural e humanizado” e “cesárea eletiva”. Via de parto não é time de futebol nem ideologia. Não tem “contra” e “a favor”. Precisamos de informação. Informação de qualidade. Precisamos achar uma forma de educar mulheres sem bombardeá-las com informações que não sejam capazes de digerir.


Shall we?

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