
Os distúrbios do assoalho pélvico após o parto trazem consequências permanentes e potencialmente incapacitantes para muitas mulheres, levando mais de 300 mil mulheres por ano a serem submetidas a cirurgia. Esse número corresponde a aproximadamente 10% dos 3 milhões de mulheres que têm parto vaginal anualmente.
O parto vaginal é o maior fator de risco modificável para o prolapso de órgãos pélvicos — o distúrbio do assoalho pélvico mais fortemente associado ao parto — e também constitui um importante fator para o desenvolvimento da incontinência urinária de esforço. Esses distúrbios levam à realização de um número de cirurgias cerca de dez vezes maior do que as lesões do esfíncter anal.
Exames de imagem demonstram que lesões do músculo levantador do ânus, do corpo perineal e da membrana perineal ocorrem em até 19% das primíparas. Durante o parto, o músculo levantador do ânus e os tecidos do canal de parto precisam se distender para mais de três vezes seu comprimento original. É esse estiramento excessivo, e não a compressão ou a neuropatia, o responsável pela ruptura muscular identificada nos exames de imagem.
Essa lesão está presente em 55% das mulheres que desenvolvem prolapso mais tarde na vida e está associada a uma razão de chances (odds ratio) de 7,3 em comparação com mulheres que mantêm suporte pélvico normal. Além disso, a lesão do músculo levantador do ânus pode comprometer outros componentes envolvidos no fechamento do hiato urogenital, como o corpo perineal e a membrana perineal.
Essas lesões estão associadas ao aumento do hiato urogenital, atualmente reconhecido como uma alteração que precede o desenvolvimento do prolapso, e também ao maior risco de falha das cirurgias corretivas do prolapso.
Os fatores de risco para lesão do músculo levantador do ânus são multifatoriais e incluem parto com fórceps, apresentação occipitoposterior, idade materna mais avançada, período expulsivo prolongado e peso ao nascer superior a 4.000 g. O parto assistido por vácuo está associado a menor ocorrência dessas lesões.
Outras medidas que, em princípio, poderiam reduzir esse tipo de trauma incluem a rotação manual da apresentação occipitoposterior para occipitoanterior, a condução lenta e gradual do desprendimento fetal, a massagem perineal ou o uso de compressas mornas durante o parto e a indução precoce do trabalho de parto. No entanto, essas estratégias ainda precisam ser estudadas para que seu efeito protetor seja comprovado.
Além disso, orientar as gestantes a evitar realizar força contra um músculo levantador do ânus contraído provavelmente reduziria o risco de lesão, ao diminuir a tensão exercida sobre a origem muscular, região particularmente vulnerável.
O cuidado às mulheres que passaram por partos difíceis pode ser aprimorado por meio do reconhecimento precoce dessas lesões, da indicação oportuna de fisioterapia e do acompanhamento adequado da recuperação.
Por fim, é fundamental que as mulheres sejam informadas sobre esses riscos ainda durante a gestação. A educação sobre as possíveis consequências do parto para o assoalho pélvico deve fazer parte do pré-natal, permitindo que cada gestante tenha condições de tomar decisões informadas sobre a condução do trabalho de parto e do nascimento.
Tradução livre do resumo (abstract) do artigo original. Em caso de divergência, prevalece a versão publicada pelos autores.

